Lembro-me bem
Ainda era noite
Quando te encontrei.
Passeando entre os casarões antigos
Andavas alegre pelas ruas e avenidas
Tão negra quanto o véu
Turvo e opaco da mais bela noite.
Em minha mente
Ainda eis figura viva
Ao fechar os olhos
Ainda posso var o teu caminhar.
O passo alegre,
As danças a cada poste.
E como era belo teu sorriso!
Confesso que estremeci
Com teu olhar.
Aqueles olhos morenos, sedutores
Lascivos e devassos.
Como dois juízes
Condenavam-me,
Expunham-me a meus sentimentos mais impuros.
Tomado de súbito pelo desejo,
Pelo cheiro de tua carne,
Tua pele branca como a lua
Que de longe nos olhava.
Não consegui parar de imaginar
De querer estar dentro de você.
Fundir-me à teu ser.
Pois neste momento
Tive certeza que só assim
Seria feliz.
Garota da noite
Author: Revérbero Pessoa /Zé e a morte
Author: Revérbero Pessoa /O Zé não presta atenção
É a bola que cai,
A comida que queima,
O tempo que não passa.
José ainda está lá
Deitado e triste.
Para ele,
Agora é impossível sorrir.
Guardado lá
Em seu momento mais sereno.
Está em paz.
Agora não mais olha,
Nem fala,
Muito menos cheira
Pobre José.
Teatro
Author: Revérbero Pessoa /Tantas atrizes
Tantos atores
Este é
Realmente
Um grande espetáculo.
Mas não se enganem
Não é belo,
Nem feliz
É antes de tudo
Triste e sem cor.
Não contemplam a vida,
Mas a morte.
Cumprem ao mesmo tempo
Um duplo papel.
São carniça e urubu,
Frutos da mesma semente.
Vão eles caminhando
Em direção ao nada
Esperando que tudo
Um dia esteja bom,
Ou, ao menos razoável.
Pena
Author: Revérbero Pessoa /A complexidade
Da criação é inevitável
Quando não há
Mais forças nas mãos.
Papéis rabiscados
Transbordam da mesa.
São sinais claros,
Vãs tentativas
De erguer em palavras
Pensamentos ocos.
A pesada pena
Agora repousa inerte
Sobre o papel.
Não gira bem
Author: Revérbero Pessoa /É minha amiga
Falam as boas línguas
Que você não gira bem.
Seu cirandar é capenga.
Você não tem mais jeito
Não tem mais porque esperar.
Vá logo andando
E não ouse olhar pra trás.
Deixe de lado
Toda essa gente
Insistente em dizer
Que você não gira bem
E que é capenga
O seu cirandar.
Tem dias...
Author: Revérbero Pessoa /Estes são dias cinza
Repletos de deformidades.
O ar
Agora denso e escuro,
Circula o inconsciente
Dando voltas e voltas
E sempre retomando
A mesma idéia.
Não criar
Author: Revérbero Pessoa /Outra vez estou aqui
Debruçado sobre pena e papel.
A vida antes fácil
Agora é dolorosa
Os versos saem cambaleantes
Um por vez
Sem ordem certa.
Mas não são versos,
São palavras tortas
Atiradas no papel
Ainda em branco.
A dor do não criar
É inevitável!
Batuque bamba
Author: Revérbero Pessoa /Saiu de casa
Às sete da noite
Com seu pandeiro
Na mão.
Já no ônibus
Começou a batucada
E batendo foi
Até o ponto final.
Saltou no ponto,
Correu feito doido
Pois o batuque verdadeiro
Já ia começar.
Esbaforido chegou,
Chegou à gafieira.
Da porta ouvia
O burburinho
E o pandeiro em sua mão
Começou a coçar.
Tocou por toda a noite,
Fez suar o barracão.
Se acabou no samba,
No pandeiro
E na cachaça.
Pela manhã
Quando a alegria teve fim
Já havia bebido
Toda a cachaça do lugar.
Vagou trôpego pelas ruas
Num cambalear gingado
Cheio de samba e tradição.
Pensamentos em pó
Author: Revérbero Pessoa /
Recolhido ao pó,
Encontro as coisas
Que realmente importam.
A superficialidade dos ídolos,
Exemplos ideais
Do viver são.
A glória corrupta,
Mascarada pela fé.
Em um tempo
Que já passou.
Espera-se pacientemente
Que num estalar de dedos [...um instante na imensidão do tempo]
Tudo se arranje,
Doce ilusão!
A vã sabedoria plástica
Implantada em
Nossas mentes.
Inertes marionetes.
Negação
Do que se foi
E do que virá!
Só nosso
Author: Revérbero Pessoa /
Meu bem
Depois de tanto tempo
Não tenho um só lamento.
Faria tudo outra vez.
Uma vez mais
Roubar-te um beijo.
E novamente
Surpreender-me.
Pensar em ti
Boa parte do dia.
Levado pela felicidade
A sorrir.
E porque não?!
Sentir as saudades
E a falta que você me faz.
Recriar nossos
Momentos mágicos.
Onde figurávamos
Em um mundo
Só nosso.
E por fim
Descobrir que juntos
Tornamos-nos um só.
Sol, vento e lua
Author: Revérbero Pessoa /Não pude
Mais ver o vento
Que lançava
Teus cabelos ao ar.
Não pude
Mais assistir
O sol a raiar
Em ti.
Não pude
Mais decifrar
Todo o teu mistério
De bela lua cheia.
Não pude
Mais participar
Do belo espetáculo
Que é viver.
Síntese
Author: Revérbero Pessoa /Pra você
Entreguei meu coração
Pra você
Entreguei minha paixão
E valeu a pena.
Com você
Eu pude até sonhar,
Sonhei que um dia
Ia me encontrar.
E ser feliz
Pra vida inteira.
Entregamo-nos
A esse amor.
E sabemos
Que na vida,
Nada tem tamanho valor.
Sou feliz
Por ter você.
Tenho tantas coisas
Para te dizer,
Eu amo você.
Quarta-feira
Author: Revérbero Pessoa /
No primeiro instante
Choramos de alegria
As luzes brilham
Numa festa colossal.
Os antigos ritos
Começam a ser lembrados,
Embebidos em poesia e tradição.
Todos felizes
Porque a noite começou.
Vejam só
Que baile sem igual.
Porém ao raiar do dia
Todos choramos
Com saudade no coração.
É o sol quem anuncia
A triste verdade,
Acabou o carnaval.
Novo dia
Author: Revérbero Pessoa /Amanhã será um lindo dia
O sol a raiar
Os pássaros a cantar,
Festejando
Um novo início.
Peço sua mão.
Vamos sair,
Olhar o Sol.
Quando estamos assim
Juntinhos...
A felicidade é mais feliz.
O sorrir mais alegre.
Sinto-me em paz
Ao teu lado.
Te amo
Minha menina.
Menina
Author: Revérbero Pessoa /Ela é a menina
Que vem
E guarda
Um brilho no olhar.
Uma moça simples
De belas feições.
Garda consigo
Um belo sorriso
Que adoro ver raiar.
Uma mulher,
Uma beleza
Que me ensinou
Dentre outras coisas
Como é bom amar.
Domingo
Author: Revérbero Pessoa /E nossos dias
Serão lindos
Como o amanhecer
De um domingo.
Quando estás longe
Falta-me um pedaço
Sou apenas eu
Sem você...
Um amor como esse
Parece-me
O paraíso
De onde nunca mais
Quero retornar.
Eu quero você
Eu te desejo
Quero-te por perto,
Perto do coração.
O corvo
Author: Revérbero Pessoa /
Maldito corvo,
Ai estás
Em meu jazigo.
Não te é suficiente
O que fizeste?
Sombrio,
Fez questão de ver-me
Padecer aos poucos.
Teus negros olhos
Mostraram-me
O caminho a seguir.
Voei em tuas asas.
Negras penas,
Roubaram-me
A alma
E gelaram meu corpo.
Não é um costume seu
Visitar os mortos.
Aqueles que um dia carregou.
Agora estás a me olhar
Com esses olhos negros,
Vazios...
Opacos...
Em frias carnes podres
Escuto o teu agouro
Mais uma vez
A ecoar em meu tumulo.
Afasta-te,
Maldito animal!
...
Author: Revérbero Pessoa /
Como os coqueiros
Dançavam aquela noite
Quero balançar
Ao te escutar.
Voar no teu olhar
Sentir-me feliz
Ao ver o teu belo sorriso.
A noite
Author: Revérbero Pessoa /Bastião dos cocais
Author: Revérbero Pessoa /Bastião dos cocais esse é filho da terra.
Pense num cabra da peste
Já aprontou de leste a oeste
Por todo esse sertão.
Quando criança
Não tinha medo de nada,
Nem de assombração.
Já adulto
Um dia cruzou com o Zé carrapeta,
Sem hesitar
Puxou a peixeira e vociferou:
- Pode vim que eu estou pronto
Seu carrapeta desgraçado,
Posso até morrer,
Mas hoje, ainda te mato!
Da outra margem do caminho
O Carrapeta olhou
Com uma cara bem feia e disse:
-Oxente,
Agora foi que deu
Um desnutrido desse
Querendo bater n’eu.
Mas Bastião dos cocais era afoito
E partiu pra cima do desgraçado.
A briga durou três dias.
-Nunca vi no sertão
Tanta gente pra ver
Uma confusão.
Uns cansaram de esperar,
Outros pegaram no sono.
E eu quero ver a peleja acabar.
Noite a dentro
O que se ouvia
Eram os golpes cortantes
Das peixeiras no ar.
E a poeira a subir
Enroscada com o vento.
No derradeiro dia
Ambos já cansados.
O Zé bobeou,
Bastião que não é besta nem nada
Meteu-lhe a peixeira no bucho
Ferindo mortalmente
O Zé carrapeta.
- Nesse momento tive pena,
Coitado do Carrapeta
Dormiu e nada entendeu
Só se deu conta depois que morreu.
